
D. Quixote e Dulcineia
Óleo, cera de abelha e óleo sobre papel japonês – 120x130cm
A matéria da pintura
Por José Sousa Machado
“Escuta
a frágil claridade que deixa a música
ao arder nas dunas
eu era dessa areia a luz precária (…)”[1]
O título desta exposição de Catarina Pinto Leite na Sá da Costa – “Palimpsesto” – remete-nos para uma prática comum entre os copistas medievais que consistia em apagar ou rasurar manuscritos escritos sobre pergaminho ou papiro para sobre eles reescreverem um novo documento ou corrigir partes do texto pré-existente.
A proximidade existente entre as pinturas e colagens actuais de Catarina Pinto Leite e o palimpsesto – utilização de um mesmo suporte para escrever textos sucessivos – decorre da semelhança processual que ambos praticam no que se refere à reutilização de um suporte de obras já terminadas para nele se inscrever uma nova obra.
Há cerca de dois anos, a artista apresentou na Galeria Diferença uma “instalação” intitulada “Rua de mão única”, na qual os visitantes circulavam entre véus translúcidos de papel japonês presos no tecto do espaço, sugerindo uma rua ladeada por paredes esvoaçantes, de transparências variáveis. Finda a exposição, a “instalação” foi desmontada e Catarina Pinto Leite reutilizou o papel japonês usado nessa exposição para elaborar as pinturas e colagens agora expostas, procedendo como os copistas dos palimpsestos e configurando aquilo que podemos designar de “palimpsestos figurados”.
A desmontagem da “instalação” restituiu ao material a sua característica orgânica original, desligada assim do conceito expositivo, mas, por outro lado, acrescentou-lhe as marcas indeléveis da sua aplicação anterior; as diferentes espessuras e texturas do papel, a translucidez aguada, a rugosidade irregular, os vincos profundos no papel amarrotado, os rasgões ocasionais ou deliberados e a sobreposição de papéis. Foi sobre este material carregado de história, vivências e memória que a artista agora interveio, pintando com Ecoline, óleo e cera de abelha – não sobre uma matéria neutra e destituída de uma biografia que o espectador não conhece, mas intui.
Na passagem do primeiro para o segundo estágio deste longo processo criativo, o olhar da artista deslocou-se naturalmente de um enredo conceptual especulativo inicial para um discurso poético e alegórico sobre a própria natureza da matéria na pintura. Caminhando num território eminentemente poético, conjugando harmonias, cromatismo, ritmos e formas evanescentes libertas de qualquer propósito representativo evidente, Catarina Pinto Leite explorou então as qualidades sensíveis dos materiais, soltos dos constrangimentos da razão, como sucede normalmente com a poesia e com a música. Como a poesia – aqui entendida como essência da linguagem, como metalinguagem – também estas obras de Catarina Pinto Leite tocam nos limites da linguagem, naquilo que ainda não foi nomeado. Sobre isso, escreveu Giorgio Agamben em “Ideia da Matéria”, dizendo que“aquilo que então tocamos não é, obviamente, uma coisa, de tal modo nova e portentosa que, para descrevê-la, nos faltam as palavras: é antes matéria, no sentido em que falamos de ‘matéria da Bretanha’ (…) onde acaba a linguagem, começa, não o indizível, mas a matéria da palavra” – uma substância indefinível que pulsa na raiz do que existe, a que “os antigos chamavam ‘silva’ (floresta)”, uma pura língua pré-babélica, que canta em uníssono com o poeta Antonio Delfini, quando escreve:
“Quando enfim chego ao poema,
Já o sono te vai chegando;
Como um sonho em tua noite
Seja para ti o meu canto.”
[1] Eugénio de Andrade, “Limiar dos pássaros”