Não são só flores
Catarina Pinto Leite: sintomas de um sentir infinito
As Festas do Povo de Campo Maior estão classificadas como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2021 e têm por base a decoração das ruas de Campo Maior, sobretudo do centro histórico, com flores de papel.
Da leitura direta que poderemos fazer desta exposição de Catarina Pinto Leite (PT, 1963) e das suas fascinantes obras feitas em cera de abelha e óleo sobre papel japonês ou os acrílicos sobre linho, inferimos o interesse do espaço.arte de Campo Maior e o convite dirigido à artista para expor. Contudo, Catarina diz-nos que “Não são só flores” e obriga-nos a ver de novo e a descobrir o indizível, mergulhando no seu mundo interior e transcendendo a nossa perceção.
Catarina Pinto Leite domina os materiais, e a sua experiência ao nível do restauro dá-lhe muitas das ferramentas de que necessita para alcançar a sublime pureza de deixar falar as formas e as cores através do papel. Expõe desde 1996, com obra presente em importantes coleções públicas e privadas, tendo feito a sua formação com mestres como Joana Valdez ou Filipe Rocha da Silva, somando-se a boa escola que também é a Sociedade Nacional de Belas Artes. A densidade conceptual do seu trabalho vem das suas pesquisas, das suas leituras e, sobretudo, de como apreende e sente o mundo em redor, de como é incapaz de se resignar à circunstância da neutralidade.
Tive o privilégio de a conhecer no contexto da exposição que realizou, em 2024, no Centro Cultural de Cascais, em que apresentou uma série de desenhos e pinturas, onde se incluem também algumas em suporte tela, nascida no contexto de uma viagem à Toscana e da leitura de um livro de Emily Dickinson (EUA, 1830-1886), “Herbarium”. O livro remetia-nos para a vivência de Dickinson na sua casa familiar de Amherst, no Massachusetts, reunindo um conjunto de poemas em que a observação da natureza é o mote, numa espécie de ode à flora local. A poesia de Dickinson foi, assim, interpretada pela plasticidade de Catarina Pinto Leite que propunha, também, uma ode a um imenso universo feminino, sugerido nas formas e na combinação simbólica das cores e dos detalhes, estabelecendo um poderoso diálogo com o espetador e convidando-nos a um silêncio sem remédio.
O recuo até Cascais interessa-nos, pois, uma boa parte dos trabalhos outrora expostos, viaja para Campo Maior. Contudo, depois do diálogo com o espetador, as obras regressaram ao atelier e a artista voltou a apropriar-se delas e ressignificou-as, permitindo que o mundo entrasse nelas e que estas absorvessem as suas dores, as suas inquietações, deixando de ser apenas flores e sendo sintomas do seu sentir infinito. Em Campo Maior apresenta, então, perto de duas dezenas de obras recentes, nas já referidas técnicas da cera da abelha e óleo sobre papel japonês ou acrílicos sobre linho, pintados a partir do verso do suporte, evidência do caráter experimentalista do processo da artista. Em Campo Maior, Catarina expande o processo da pintura para as três dimensões, como é exemplo “Paisagem Portátil” (2019-2024) e agrega ao seu processo a (re)leitura do quotidiano e dos objetos que vão habitando o atelier.
Todas as obras têm um título e, nessa intencionalidade, a artista sugere-nos uma leitura poética da sua visão, não deixando de apelar à imaginação não-linear do espetador, do leitor e talvez Dickinson regresse, no pensamento de Catarina, também a Campo Maior, para cruzar os elementos e as emoções e nos lembrar que as obras de arte são sempre bastante mais do que odes ao belo. Escreveu:
“A água se ensina pela sede; A terra, por oceanos navegados; O êxtase, pela aflição; A paz, pelos combates narrados; O amor, pela cinza da memória; E, pela neve, os pássaros.”
Há, nestas obras de Catarina Pinto Leite uma evidente sugestão formal que nos reporta para o universo conhecido da natureza, das plantas. Não obstante, no esbatimento que os materiais utilizados permitem, também há os resquícios do pensamento abstrato ou, pelo menos, de sentido menos restrito. A matéria e o seu domínio é tudo, ou quase, na produção desta artista e é no fazer das mãos que dá força às ideias e aos sentimentos. Não são apenas flores, nem poderiam sê-lo, considerando a amplitude do universo interior e mágico da artista, a singularidade da sua sensibilidade e da intenção de expressão. A obra tem a água, a terra ou o barulho dos pássaros, enquanto está plena de aflição, do sabor da luta, dos caminhos do amor e da memória e é por isso que nos diz tanto e que, também nós, espetadores, vemos mais do que flores, flores, árvores, paisagens do verde, do ocre e dos outros tons. Há, nesta exposição, uma extraordinária oportunidade de, no silêncio que as obras impõem, pensarmos o mundo.
Helena Mendes Pereira